Friday, July 14, 2006
Thursday, July 13, 2006
Erro fatal
A violência não fazia parte tão presente da vida da gente. Era mais coisa pra se ver do que pra sentir. Quando criança eu via a guerra Irã x Iraque na TV e pensava como aquele povo poderia viver no meio de tanta loucura e decadência. Soube depois - ou ao menos passei a acreditar - que as imagens que apareciam na TV eram pinçadas dos momentos de maior violência, eram fatias quase enganosas da realidade daquele país. Porque depois vi documentários que mostravam iranianos e iraquianos (cada um no seu país) indo a escola, ao escritório, fazendo compras, vivendo a vida normalmente, no mesmo território onde se via violência terrível. Foi estranho concluir que realidades distintas compartilhavam do mesmo espaço. Causou estranheza ver crianças com metralhadoras na mão, prédios cravejados, automóveis em chama e saber que nesse mesmo espaco tinha gente como a gente numa vida quase normal. De qualquer forma, isso era violencia pra mim. Uma coisa distante.
Por aqui o que me assustava era ter o meu Casio roubado na esquina da Fernandes Vieira com a Vasco da Gama, na volta do Rosário. Antes disso eu morava em Ijuí e nada me assustava. Bem, o bebê de rosemary me apavorava. Depois comecei a ouvir falar de sequestro, estupro, assalto com reféns, e um monte de outros crimes foram surgindo e se tornando mais presentes na mídia. Porém essa violência tava dentro da tela da TV e nos jornais, nos livros Olga e Brasil Nunca Mais e talvez no relato de um amigo do amigo do amigo que sofreu algo.
Assim como a guerra Irã x Iraque, a violência era à distância. E eu diria que ela poderia ser limada da vida da gente ao ficar alguns dias sem ver jornais. Diferente de hoje que a violência acontece descaradamente e assusta até quem não assiste TV.
Semana passada eu chegava aqui na Globalcomm e um colega, o Adriano, me encontrou no elevador (ele tava ofegante) dizendo que acabara de ver um caroneiro de uma moto disparar diversos tiros em um carro, ao lado dele, a uma quadra daqui, na esquina do Caixeiros Viajantes, na rua Dona Laura. Contou que o trânsito ficou maluco, carros passaram por cima da calçada, deu um engarrafamento chato que fez a Martina se atrasar e... o dia continuou. Em horas o fato tinha sido digerido e eu nem pensava mais nele. Penso agora de novo e descubro que isso não sai da cabeça da gente, não. Fica tudo acumulado e incomodando, batendo, esperneando, como se dissesse pra eu não aceitar, lutar contra, ou fugir. Assim como volta a minha memória que o meu apartamento foi arrombado, levaram jóias e meu powerbook e segunda-feira levaram o rádio do meu carro, que tava com a Carolina.
Enfim, o Brasil tá foda. Tá impossível. O meu otimismo está acabando, minha crença de que era possível mudar, de que, se tivéssemos os governantes certos a coisa engrenava, a mesma crenca que me fazia ser político a ponto de puxar passeatas em Ijuí, de bater ponto no comitê de campanha do Mario Covas, essa força otimista de acreditar que se você fizer certo vai dar certo, tá perdendo.
Viver aqui dá uma sensação de erro, algo como uma mensagem de alerta de computador antes do programa realizar um erro fatal e fechar.
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Mauro
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Wednesday, July 12, 2006
Bia Falcão ensina a viver no Brasil.
Ontem fui consultado, em um grupo do qual faço parte, a dar minha opinião sobre o envolvimento desse grupo em uma ação proposta por uma empresa que tem a sua frente um cara que, no passado médio, fez o que eu chamaria de falcatrua intelectual. Esse cara apresentou em entrevistas de emprego, onde ele buscava uma vaga na direção de arte de agências aqui de POA, duas peças publicitárias minhas e algumas outras peças de outros profissionas conhecidos meus, como sendo criadas por ele. Ou seja, ele se apropriou indevidamente do meu trabalho intelectual e quis ganhar vantagens (um emprego) com o esforço que não foi dele. Agora ele propõe uma acão muito interessante de parceria com esse grupo que faço parte, e estamos tentados a aceitar essa ação, mediante a boa premiação que é oferecida.
Então ficou uma questão ética no ar. Aceitar a boa proposta e esquecer o passado? Não aceitar como veredito de um julgamento? Conversar com a pessoa e esclarecer o fato do passado antes de tomar a decisão?
Apesar da lógica me levar à última opção, algo me diz que o fato de viver no Brasil não permite tal coisa. Me parece que a falta de conceitos básicos de ética, a falta de memória coletiva, a completa falta de punições, o quadro caótico que vivemos, tudo isso e muito mais me faz ser previdente e não acreditar na versão, nem sequer na acariação olho-no-olhoi. Me faz sentir a necessidade de avaliar exclusivamente o fato, sumariamente.
Afinal, existe a máxima consagrada na última semana por uma brasileiríssima:
"A VERDADE É RELATIVA E TEM MUITOS FATOS. MUITOS FATOS.
TUDO DEPENDE COMO A HISTÓRIA É CONTADA"
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Mauro
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O Brasil.
Hoje de manhã tomei café no Listo, ali na Padre Chagas. Sentei na mesa enquanto a Martina foi pedir dois farroupilhas e dois café-com-leite. Na mesa, a minha frente, tinha um grupo de quatro pessoas, uma delas muito falante, com uma voz estranhamente aguda, prendia a atenção dos outros três, e a minha por instantes. Acompanhei o papo por uns minutos até entender que os três eram jogadores de futebol, o que se tornou óbvio quando observei os trajes e os cortes de cabelo. E o outro, da voz esganiçada, juro que era o empresário. Vestia terno risca de giz e pregava um papo glamourizante sobre os três humildes. Coisas do tipo "agora que tu tá na calcada da fama tu vai ver o que é mulher bonita", "roupa!? ah... vocês não viram nada... semana que vem a gente passa na Conte Freire. Vocês nunca viram atendimento tão profissional. hahaha!", "tem uma joalheria em São Paulo especializada em cruz. Fazem de ouro, diamante, platina, sabe platina?" - "Platini, o francês, to ligado! - disse sorrindo o do cabelo desenhado. Todos gargalharam. Três deles em êxtase, com um anzol na boca.
Enfim, uma manhã qualquer nesse Brasil idolatrado.
Tomei meu café, comi meu farroupilha e fui fazer valer esse dia útil.
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Mauro
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Tuesday, July 04, 2006
Talvez a internet seja o grande golpe do Lex Luthor.

Isso é o que diz Mark Friedman, uma americano qualquer que vive em Talahasse, FL. Diz ele que o onze de setembro que o mundo viu há 5 anos mostrou que a realidade pode ser mais cruel e suspreendente do que a ficção. E que em breve nos surpreenderemos novamente com algo tão grandioso no mundo virtual. Mark diz que acontecerá uma espécie de bug do milênio programado que vai desestruturar o mundo em proporções catastróficas. A internet, segundo o cara, que é um estudante da Florida State University, está ganhando confiança crescente de empresas e público em geral a ponto de todos confiarem aos seus servidores informações vitais, tanto para a estabilidade do sistema financeiro, jurídico, quanto para questões de estabilidade emocional ligadas a dependência do mundo virtual. Diz que tal profundidade de envolvimento está sendo monitorada e que no momento certo será iniciado um processo de destruição do sistema em etapas calculadas para não ser percebido como um grande golpe até que o mundo perceba que não há mais possibilidade de retorno. Nesse momento haverá uma ação direta ao sistema bancário que fará todas as contas serem redistribuidas igualitariamente. E, sem nenhum tipo de comunicacão depentente de sistemas digitais, sem registros jurídicos, sem formas de realizar uma coordenação global, pouca coisa poderá ser feita para reestabelecer a ordem atual.
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Mauro
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11:46 AM
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Monday, July 03, 2006
Cada time tem a propaganda que merece.
Bendito sea el mundial con que soñamos
Bendito cada nombre que ha sido designado
Bendito los pibes que siempre sacamos
El peso de la historia, el respeto ganado
Maldito sean los recuerdos dolorosos
Maldita la impotencia, la injusticia que vivimos
El volvernos a casa cada uno por su lado
Las finales sin jugar y quedarme en el camino
Bendita la anestesia general a los dolores
La tristeza que curamos con abrazos
Las gargantas que se rompen por los goles
El sentirnos los mejores por un rato
Malditos los sorteos y los grupos de la muerte
Los controles sin azar que asignaron nuestra suerte
Malditos los mezquinos que juegan sin poesía
Los que pegan, los que envidian, los que rompen y lastiman
Bendito sea el orgullo con el que entramos a la cancha
El potrero y la pelota no se machan
La TV que repite la gambeta
Inflar las redes de los otros, inflar el pecho de los nuestros
Merecer la camiseta
Los turistas, los cronistas, los sponsors, los amigos, el himno
y las mujeres siguiendo los partidos
Bendita las cabalas que dan resultado
Las risas y el llanto que guardaremos tanto
Y bendito ese momento que nos regala el fútbol
De poder cambiar nuestro destino
Y sentir otra vez y frente al mundo
LO GLORIOSO Y LO GROSO DE SER ARGENTINO!!!
Quilmes. Del lado del corazon.
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Mauro
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1:44 PM
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A incrível mentira que perdeu a Copa.
Eu, que não acompanho futebol, que não jogo nem playstation, que não sei bem a diferença entre Barcelona, Arsenal e Real Madrid, vi há 7 meses, o impossível acontecer nos pés do craque Ronaldinho Gaúcho. Ele calçou uma chuteira e engatou uma série de embaixadas com domínio de bola que o mundo não imaginava ser possível. Conduziu a bola com malabarismos perfeitos e chutou para o gol, a bola voltou nos seus pés e ele chutou de novo e o mesmo aconteceu mais 3 vezes. E a bola não caiu nenhuma vez, esteve sob controle do craque como um animal domado a chicote num circo. Incrível.
Só que aquilo que meus olhos viram era de mentira. O controle da bola não era proporcionado pelo sorridente Ronaldinho Gaúcho. Óbvio! Dããã! Como uma cara, mesmo que o melhor jogador do mundo, poderia fazer aquilo...? Teria que ser muito preciso, milimetricamente preciso, pra cada um dos chutes acertar o travessão e voltar exatamente nele... é certamente impossível. Aceitei isso, mas meu subcérebro guardou direitinho aquelas imagens. Descobrimos então que era uma estratégia de marketing viral para lançamento da chuteira Nike 10 Tiempo Air Legend. Enfim, era mais uma brilhante campanha fora de moldes que a Nike fez pra potencializar seus investimentos com seus patrocinados. O ganho de mídia que eles tiveram foi altíssimo, teve materia sobre isso na maioria dos noticiários e jornais do mundo. O assunto ganhou os olhos do povo e hoje é difícil encontrar alguém que não tenha visto o craque da Nike fazendo aquele show com a bola. Continua.
Então, pouco mais de um mês depois, antes da copa começar, surge uma campanha mundialmente chamada "Joga Bonito". O ex-craque Eric Cantona fala sobre a arte de jogar futebol com beleza, mostra belas jogadas de craques brasileiros, mostra o jovem Ronaldo Assis mostrando a sua arte ainda criança num jogo de colégio. Faz um chamado para o mundo não ficar satisfeito de ver vitórias magras, times retrancados, faltas, anti-jogo. E, para os jogadores, pede dedicação pra manterem o futebol um esporte bonito. Isso tudo usando um termo em português brasileiro como síntese, o que fez o reflexo positivo todo da campanha se voltar pro Brasil. Deu orgulho, muito orgulho de ser da mesma pátria desses deuses da bola. Foi um grande sucesso.
Mas aí veio a copa e estragou tudo. Enquanto o desatre se formava o meu subcérebro me mandava constantemente a imagem do Ronaldinho acertando a trave 4 vezes e dominando com perfeição. E por mais que eu visse apenas mediocridade no jogo daqueles 11 brasileiros, a imagem voltava e me dizia que ele era o melhor do mundo e que a qualquer instante a força tomaria o seu corpo e ele faria um gol com o carimbo "joga bonito. E que o Kaká ia corresponder, que o Cicinho ia entrar (meu deus, nunca tinha ouvido falar nesse nome e já depositava nele a minha felicidade) e que o Robinho, que o Juninho Pernambucano... acreditei neles todos. Até no Galvão Bueno e no Casagrande eu acreditei. Mas não deu. Antes tivesse tido uma guerra pra adiar os jogos, um tsunami invadindo a europa, furacões, chernobil, atentados terroristas... pra gente não ver a queda dos deuses, pra não quebrar a expectativa implantada na minha cabeça. Queda ridícula, patética, vergonhosa. Fui enganado. E espero, do fundo do meu coração brasileiro, que a Nike, o Parreira, o Galvão e o que resta do Zagalo se fodam. E o futebol também, esse esporte murrinha.
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Mauro
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9:07 AM
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